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Público ávido por novidades faz mercado sair do status de modinha. Número deve ser maior devido às produções ciganas

Flavio Baruffaldi e Marcello Falbo são sócios do bar OverHop cerveja que começou sem pretensão com amigos

Flavio Baruffaldi e Marcello Falbo são sócios do bar OverHop, cerveja que começou sem pretensão com amigos. Foto: Roberto Moreyra

RIO - O mercado das cervejas no Brasil está mudando, assim como o paladar dos seus apreciadores. Quem puxa quem é difícil saber, mas é justamente o fato de haver um público ávido por novidades que faz este nicho se manter e sair do status de modinha — como os iogurtes e paletas mexicanas — e expandirem.

O crescimento anual médio no país é de 20% e, no estado do Rio, que ocupa a 6ª posição de fábricas instaladas, foi de 8,8% no último ano. O número não contabiliza as cervejarias independentes, nem volume produzido ou vendido, e o total deve ser maior pois é muito comum nesse meio a figura do produtor cigano, que aluga a instalação para fazer sua receita e fica de fora das estatísticas.

Segundo Pedro Fraga, sócio da Wonderland Brewery e diretor de comunicação da Associação de Micro Cervejarias do Estado do Rio de Janeiro (Amacerva), a região que mais produz cervejas artesanais é a de Nova Friburgo. Em 2018, foram 10 plantas cervejeiras registradas no Ministério da Agricultura.

— Teresópolis, Petrópolis, Vale do Paraíba, Maricá e Saquarema também são polos que se destacam na produção fluminense, além de Três Rios e Guapimirim. Este último, pela facilidade burocrática — acrescenta Luana Cloper, diretora do Mondial de la Bière Brasil, evento que vai reunir 120 cervejas artesanais (50% do Rio), entre lançamentos e rótulos base, de 4 a 8 de setembro, no Píer Mauá.

Questão de gosto

Já diz o ditado “gosto não se discute”. Mas quando se trata de negócios, é bom saber o que o povo anda consumindo. Para Luana, embora o brasileiro tenha uma preferência história por cervejas mais leves e refrescantes, como a pilsen, no caso das artesanais, o estilo IPA (mais amargo) é bem popular.

Fraga explica que a Amacerva ainda está em fase de levantamento de diversos dados a respeito do mercado, mas acredita que o estilo mais produzido ainda seja o pilsen, seguido por cervejas mais lupuladas (com mais amargor).

— As pilsen e de trigo (weissbier) são a porta de entrada para estreantes no universo artesanal da bebida. A tendência é sempre a descoberta de novos sabores. Hoje em dia, o consumidor médio de cervejas artesanais já está apaixonado por lúpulos e parte para bebidas complexas, com outros perfis como as cervejas ácidas, envelhecidas, as stouts de sobremesas.

A especialista no assunto Érica Barbosa afirma que é aa amplitude para sabores o que difere este nicho e mantém um público ativo.

Flavio Baruffaldi e Marcello Falbo são sócios do bar OverHop cerveja que começou sem pretensão com amigos

Érica Barbosa fundou em 2016 um instituto para quem quer se profissionalizar neste mercado, com aulas sobre tributação, marketing e rótulos. Foto: Divulgação

— No Brasil, há muito procura por sabores novos e lançamentos. Não temos tanta fidelidade de marca, como as marcas de varejo. Isso acaba movimentando este mercado, porque quem gosta de cerveja artesanal vai sempre querer provar novidades. É um caminho sem volta — diz ela que fundou o Marketing Cervejeiro, um instituto que oferece cursos e está crescendo.

De 2016 para cá já são 12 edições e, neste ano, lançou o de tributação em 2019 e o coquetelaria em 2018. O mais procurado, segundo ela, é o de marketing de cervejas, onde aprende-se planejamento, posicionamento, criação de rotulo, marketing digital e organização de eventos.

— Falamos sobre o negócio cervejeiro, tanto para quem produz quanto para quem vende ou divulga. Esse nicho tem algumas particularidades. Por exemplo, na hora de segmentar o público, usar as palavras chaves porque apenas cerveja abrange todo mundo.

Da panela para o mundo

As histórias de quem resolve empreender neste segmento são muito parecidas.

— Começamos eu, meu irmão e um amigo a fazer receita para os amigos — conta Flavio Baruffaldi sobre a OverHop, que se prepara para dobrar a produção mensal, hoje, de 10 mil litros, acaba de entrar nos supermercados e prevê a distribuição para São Paulo Minas Gerais até o fim do ano.

Flavio Baruffaldi e Marcello Falbo são sócios do bar OverHop cerveja que começou sem pretensão com amigos

Luana Cloper, da Mondial de la Bière Brasil: “Quem busca a cerveja artesanal está ampliando o seu paladar”. Foto: Roberto Moreyra

Hoje, eles trabalham com oito linhas fixas e abriram um bar, em Botafogo, este, com outros amigos. Para Flavio, diversificar é o segredo.

— Tem que sempre inovar, senão o mercado engole. Dá para brincar muito no sabor, mudar o lúpulo, a receita — diz o empresário, contando que uma outra curiosidade é a crescente preferência de cervejas mais fortes pelas mulheres.

O caminho natural depois da panela em casa é a produção cigana. Mas, às vezes, o alicerce se torna produtor. É o caso da Cervejaria Lagos, feita em Saquarema. Depois de um tempo disponibilizando seu espaço, eles decidiram que, além de ser base para fabricações independentes, neste ano, vão lançar a sua marca própria, a Enseada, no Mondial de la Bière. Serão três rótulos fixos e outros seis sazonais.

— Quando a Lagos foi montada, o investimento nos equipamentos foi feito já pensando em sua expansão fabril. Apesar de hoje ter uma capacidade de produção de 100 mil litros por mês, com a compra de uma centrífuga é possível aumentar sua capacidade em mais de 50% — Marcelle Lopes, sócia-fundadora da Cerveja Enseada.

Procura pelas artesanais é absorvida pelas gigantes

O mercado das cervejas artesanais caiu tanto no paladar dos brasileiros que até as gigantes do varejo aderiram. Heineken, Grupo Petrópolis (de Itaipava, Black Princess, Petra e Ampolis) e Ambev (Antarctica, Brahma, Skol, Wäls, Serramalte, Leffe, entre outras), hoje, têm linhas especiais em suas cartas.

A Heineken Brasil, por exemplo, trabalha com duas marcas do segmento: Eisenbahn e Baden Baden, cada qual com propostas diferentes. Segundo o diretor de marketing do Grupo Heineken Brasil, Eduardo Picarelli, a primeira busca unir a qualidade das artesanais ao preço mais acessível. Por isso, há diferentes estilos e sabores desta cerveja, desde as mais leves e fáceis de beber, até os líquidos mais complexos.

De 2002 para cá, são 10 opções no portfólio e dois lançamentos sazonais a cada ano. Um deles é resultado de um reality, no qual o vencedor tem sua receita comercializada no varejo durante o ano, com seu nome na garrafa. O outro acontece sempre para a Oktoberfest.

Flavio Baruffaldi e Marcello Falbo são sócios do bar OverHop cerveja que começou sem pretensão com amigos

Linha artesanal da Heineken tem opções para atingir público maior Foto: Divulgação

Já a Baden Baden, explica, é mais focada em ingredientes diferentes, maior complexidade e usa técnicas mais tradicionais. Além destas duas marcas, em breve será lançada a Lagunitas, uma marca da escola americana que tem como principal característica produzir cervejas bem lupuladas.

— As cervejas artesanais são cervejas que utilizam ingredientes de alta qualidade e que tem maior cuidado no processo de produção. Então, para a Heineken faz muito sentido investir neste segmento, pois é uma categoria que oferece cervejas de qualidade para mais consumidores. Com essas três marcas conseguimos cobrir um range bem forte do mercado em termos de gostos e estilos de cervejas — avalia Picarelli.

Por outro lado, ele pondera que, mesmo com o crescimento, o mercado de cervejas artesanais brasileiro ainda é muito insipiente.

— Quando a gente olha para a capacidade potencial que este mercado pode ter em comparação a outros países, como por exemplo, os Estados Unidos, acreditamos que o mercado brasileiro ainda tem muito a crescer e se desenvolver.

Análise: A competição nunca esteve tão acirrada

Por José Padilha, sommelier de cerveja e mestre em estilos

O mercado de cerveja artesanal no Brasil, assim como em todo o mundo, está numa curva exponencial de crescimento. Este ano, o Brasil inaugurou sua milésima fábrica de cerveja, sendo que há 10 anos tínhamos cerca de apenas 100. No entanto, há uma pequena retração diante de uma mudança de hábito de consumo. Estamos bebendo menos, mas melhor. A voz corrente entre os cervejeiros é que o mercado de cervejas artesanais está saturado, apesar da expansão de agora.

Se, por um lado, estão com uma fatia cada vez maior do mercado, por outro lado, a entrada de novos players e profissionais está numa velocidade muito maior do que o crescimento de novos consumidores. O fenômeno dos ciganos (os sem fábrica que terceirizam a produção) contribuiu para essa expansão e a competição nunca esteve tão acirrada.

A guerra pelo preço, novidades, estilos inéditos e novas técnicas de produção, nunca esteve tão forte, fazendo as marcas menos preparadas caírem pelo caminho. Parece que isso vai beneficiar o consumidor, mas é o contrário. Na corrida a qualquer custo, deixando de lado estilos tradicionais e marcas que não são “hypadas”, só quem ganha com isso é o “beer geek”, cujo consumo não impacta no volume de venda que o mercado precisa.

 

Fonte: O Globo – 31/08/2019

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