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Colheita no interior de SP começa neste domingo (28) e já deve abastecer cervejarias da região; espécie Mantiqueira sofreu mutação para se adaptar

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João Carlos Oliano exibe o lúpulo da Mantiqueira plantado em Tuiuti: escoamento para cervejarias locais (Foto: Arquivo Pessoal)

O empresário João Carlos Oliano ganhava a vida com o salão de beleza e a venda de cosméticos, mas nunca se interessou pelo cultivo de milho, verduras e hortaliças nas terras da família, em Tuiuti (SP). Mas a paixão por cerveja e a produção artesanal o fizeram aceitar um desafio: cultivar lúpulo no Brasil. Neste domingo (28) ele vai começar a colheita de cerca de 50 quilos de uma safra da espécie Mantiqueira com alto valor aromático para ser usado pela indústria cervejeira.

A inviabilidade da erva ao clima brasileiro se deve à incidência solar insuficiente. Além de temperatura amena, os pés precisam de uma luz solar diária de até 14 horas, por isso se adapta mais fácil aos países do Hemisfério Norte.

A solução de Oliano, assim que adquiriu parte das terras, foi ampliar a distância entre os postes usados para a muda crescer, evitando sombras e aproveitando melhor a exposição da erva à luz. “O espaçamento maior foi necessário, pois a folhagem bloqueia a luz. É um modelo que eu criei, acabei perdendo espaço de plantio”, argumentou Oliano.

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Lúpulo após ser colhido (à esq.) e cortado ao meio, onde é possível ver a lupulina, que traz o sabor amargo (Foto: João Carlos Oliano/Divulgação)

Essa é a segunda colheita do cultivador e a tendência é que, nos próximos anos, a quantidade colhida aumente em até dez vezes e o alfa ácido (a.a.), responsável pelo efeito de amargor e aroma na cerveja, também. “Mas só no quarto ou quinto ano a planta vai estar no auge, aí estabiliza”, explica Oliano. O lúpulo da Mantiqueira tem entre 4,5% e 5% de a.a., suficiente para ser usado na receita de uma cerveja.

Ao todo, o empresário investiu cerca de R$ 60 mil na plantação, com postes de eucaliptos, cabos para a parte aérea e mudas. A expectativa é de que as próximas safras aumentem para 300kg. O valor do quilo do lúpulo de Tuiuti é R$ 300 fresco e até R$ 450 seco. "A diferença é que, fresco, ele dura um mês, no máximo, mas preserva mais as características. Seco pode durar até um ano", explicou o plantador.

Lúpulo brasileiro não desiste nunca

O lúpulo da Mantiqueira foi descoberto pelo engenheiro agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael, que tentou, em 2011, cultivar a erva na fazenda Entre Vilas, em São Bento do Sapucaí (SP), após conseguir umas mudas criadas em estufa.

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O engenheiro agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael, que viu o Mantiqueira renascer em suas terras (Foto: Arquivo Pessoal)

O problema é que a plantação não vingou e ele jogou as mudas em uma área de descarte de matéria orgânica. Após alguns meses, uma delas sobreviveu e, diante da descrença do agrônomo de que ela sobreviveria aos períodos de chuva, se estabilizou. Foi essa mutação da natureza que permitiu nascer o primeiro lúpulo brasileiro.

O Mantiqueira descende do Cascade, lúpulo norte-americano que foi obtido de outra linhagem, o English Fuggle. As sementes obtidas por Ismael vieram do Canadá. Toda essa linhagem mostra que a espécie tem uma habilidade de se adaptar ao meio. “A cada ano, com a maturidade da planta e também os acertos nos tratos culturais, a evolução é muito nítida. Tanto no rendimento quanto na qualidade. A vantagem é sua rusticidade e resistência a doenças. É um ‘lúpulo trator’”, definiu o agrônomo. A safra deste ano na fazenda dele deve atingir 500 quilos e atenderá uma grande cervejaria.

Utilidade pela indústria

De acordo com o laudo fornecido por Ismael, o Mantiqueira têm uma concentração de Cohumulona de 23% a 54%, mais alto do que o do próprio Cascade, que vai até 40%. Esse componente do lúpulo é um dos responsáveis pelo amargor, mas gera essa característica de maneira muito ríspida, quase intragável.

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Especialista em lupulagem, Matheus Aredes diz que Mantiqueira deve ser usado com inteligência (Foto: Arquivo Pessoal)

Para o professor Matheus Aredes da escola Bräu Akademie, é preciso levar isso em consideração quanto ao uso na indústria, principalmente por causa de uma característica intrínseca do “avô” deste lúpulo. “Uma quantidade muito alta Cohumulona não é boa para o amargor. Essa que você me passou é uma das mais altas. Se for uma cerveja com amargor baixo, pode usar também, mas o ideal é usar para aroma”, ponderou.

Oliano disse que vai escoar a safra para micro e pequenas cervejarias locais. Uma delas já programou uma adição dos lúpulos recém-colhidos ainda nesta semana como fase de teste. A menor parte ele pretende usar para brasagens caseiras. “Eu vou fazer uma Blond Ale usando só o Mantiqueira, tanto para amargor quanto para aroma. Também vou testar para fazer o aroma e dry-hopping [adição do lúpulo na maturação] em uma IPA”, planejou o empresário.

Impacto da economia

Considerado o ingrediente mais caro para a produção cervejeira, o lúpulo faz a diferença no custo para o produtor. O desenvolvimento de maltes brasileiros de boa qualidade ajudou nesta balança. De acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviço, de 2016 para 2017, houve uma queda de 7% na importação de malte.

No mesmo período, a importação de lúpulos e derivados como extratos cresceu 15%. A maior parte do lúpulo usado pela indústria vem na forma de pellets, pequenos grãos com alta concentração da lupulina. Por enquanto, o lúpulo Mantiqueira vai ser usado in natura.

A Universidade de Campinas (Unicamp) desenvolve uma pesquisa com a espécie de lúpulo Mantiqueira com o intuito de potencializar suas qualidades e torná-lo mais eficiente e acessível para o uso industrial.

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Plantação de lúpulo em Tuiuti (SP): espécie mutante se adaptou ao clima brasileiro (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Carlos Alciati Neto, G1 Campinas e Região

Fonte: G1 - 28/01/2018

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