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O mercado de bebidas engarrafadas em PET está prestes a viver sua maior mudança desde a criação da resina que popularizou o segmento e abriu as portas para pequenos fabricantes. Depois de mais de seis anos em discussão na Comissão de Alimentos do Mercosul, no dia 9 de agosto a ANVISA colocou em consulta pública proposta que permite o uso de PET reciclável para a fabricação de novas embalagens de alimentos e bebidas. Faltam apenas detalhes burocráticos para que a medida entre em vigor, o que deve acontecer em 2008.

A questão fica em aberto até o dia 9 de outubro e, depois da regulamentação aqui, passa por um processo de homologação nos quatro países - que dura mais 180 dias - para que, então, se publique a chamada "Resolução Mercosul". Trata-se de uma mudança importante, sobretudo em tempos de valorização da sustentabilidade. Até o momento, a reutilização do material para a fabricação de garrafas era proibida no bloco do Mercosul, ao contrário de países como Estados Unidos, Alemanha e Áustria. Até a publicação da resolução, o PET reciclado no Brasil só pode ser usado para outros fins, como a produção de fibra de poliéster para indústria têxtil e na fabricação de cordas e cerdas de vassouras e escovas.

Usar o PET reciclado tem duas vantagens claras: ambiental e social. Garrafas recicladas usam menos energia na sua produção do que a resina virgem, além de reduzir o lixo e a emissão de gases. Atualmente, cerca de 80% dos refrigerantes vendidos no Brasil são embalados em PET e algumas pequenas empresas já começam a envasar cerveja nesse tipo de embalagem.

A ONG Compromisso Empresarial para a Reciclagem (CEMPRE) estima que, com o aumento da demanda, o preço do PET reciclado possa subir em até 30% para as cooperativas e catadores.

O Brasil é o maior mercado mundial de reciclagem de PET. No ano passado, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET), o índice de reciclagem do produto atingiu 47%. Num país como o Brasil, a coleta seletiva virou o ganha-pão de um exército de desempregados.

Estima-se que existam entre 400 e 500 mil pessoas trabalhando informalmente na coleta de lixo no país. Apenas a indústria de reciclagem de PET gera cerca de quatro mil empregos diretos.

Embora esses benefícios sejam nítidos, a viabilidade econômica do PET reciclado ainda é uma dúvida.

A equação é a seguinte: enquanto o PET virgem é barato - foi o produto que democratizou o mercado e permitiu o acesso de centenas de novos fabricantes ao mercado de refrigerantes e água - a implantação de uma linha de reciclagem para reutilização da resina em bebidas e alimentos é cara. Estima-se que a montagem de uma fábrica completa fique entre R$ 20 e R$ 30 milhões. Por conta disso, a competitividade da resina reciclada em relação à virgem é baixa, ao contrário do alumínio. As empresas que já detém a tecnologia da reciclagem de PET para alimentos e bebidas, caso da BahiaPet e From PET, do Recife - que hoje trabalham apenas com exportação - dizem que a diferença de preço entre a resina reciclada e a virgem vai existir e deve ficar entre 15% e 20%. Mas nem todo mundo que atua nesse mercado concorda que o PET reciclado consiga essa vantagem competitiva. "O preço deve ficar muito próximo ao do PET virgem", diz Hermes Contesini, responsável pelas relações com o mercado da ABIPET. O aumento da demanda pelo PET reciclado no mercado externo, onde o produto é bastante valorizado, também pode ajudar a desequilibrar essa conta. "As empresas também se preocupam com a rentabilidade do negócio, não apenas com o meio ambiente", diz Contesini. Embora seja permitido, o produto reciclado raramente é usado puro.

Lá fora, as empresas costumam misturar o PET reciclado ao virgem, numa proporção média de 30% para 70%. A Coca-Cola é uma das maiores entusiastas do assunto e investe pesado em tecnologia. Sua primeira garrafa de plástico reciclado foi produzida em 2001 e, atualmente, vende esse tipo de embalagem em 17 países. A multinacional tem parceria em fábricas de reciclagem de PET no México, Suíça, Filipinas, Alemanha, Áustria, França e Austrália, além de mais duas em construção na China. Mas a sua maior tacada nessa área foi anunciada em agosto, quando a Coca-Cola divulgou que irá investir US$ 60 milhões na maior fábrica de reciclagem de PET do mundo, na Carolina do Sul. O objetivo da companhia é reciclar e reutilizar 100% das garrafas de plástico produzidas nos Estados Unidos. A quantidade de resina reciclada na nova planta será equivalente à produção de 2 bilhões de garrafas. "A sustentabilidade do nosso negócio no longo prazo depende da nossa habilidade em assegurar a sustentabilidade das nossas embalagens", disse Sandy Douglas, presidente da Coca-Cola da América do Norte, na ocasião do anúncio. José Mauro de Moraes, diretor de meio ambiente da Coca-Cola Brasil calcula que o uso de resina reciclada no país deve começar com 10% do total. Em 2006, foram recicladas 174 mil toneladas. A empresa deve ser uma das que adotará o novo produto no Brasil - não sabe ainda se investindo diretamente ou comprando de fornecedores que sigam padrões mundiais da companhia. Moraes acredita que, além dos grandes, os fabricantes de bebidas de menor porte também devem ser um importante mercado para o PET reciclado.

Já a AmBev não está entusiasmada com o novo produto. Diz que a maioria do PET no Brasil vem de lixões e não acredita que seja seguro reutilizá-lo em seus produtos. De fato, como a coleta seletiva de lixo ainda é realidade em apenas 200 dos cinco mil municípios brasileiros, atualmente 50% do produto reciclado vem de lixões e outros 50% de coleta seletiva, segundo estimativas da Abipet. Mas, de acordo com a ANVISA, a resolução será publicada somente depois que os critérios de descontaminação definidos na legislação assegurarem a saúde da população.

A ANVISA fez pesquisas para conhecer as tecnologias para limpeza e descontaminação do PET reciclado usado nos EUA - onde o processo é aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) - e países da União Européia.

Através de sua assessoria, a AmBev também informou que acredita que o PET reciclado seja economicamente inviável. A InBev, uma das maiores fabricantes de cerveja em PET da Europa, não tem nenhuma planta de reciclagem da resina e não tem estudo para instalação. A política das grandes empresas para estimular a reciclagem é apoiar cooperativas de trabalhadores, mas elas estão investindo para desenvolver novas tecnologias.

A AmBev criou uma garrafa eco eficiente, a chamada cinturinha, cujo design permite que 92 toneladas de PET sejam economizadas por ano, o equivalente a 1,84 milhões de garrafas. O rótulo 35% menor em relação ao das garrafas tradicionais evita o uso de mais 40 toneladas de plástico. A embalagem está sendo usada em cinco marcas.

Já a Coca está investindo em tecnologia para promover o uso do PET reciclado na própria cadeia, como estantes usadas no ponto-de-venda - já em uso nos supermercados.

Outro produto, os separadores de pallet, usados nas fábricas, já estão em estudo e devem ser vendidos ainda este ano.

Mais uma fabricante de cerveja decidiu aderir à embalagem PET. Em janeiro do próximo ano, a pernambucana Frevo colocará nos supermercados a primeira leva da nova garrafa. Ela se soma às paulistas Belco e Atlas, que fizeram lançamentos recentes. Em fase final de testes, a nova embalagem imitará uma garrafa long neck de 350 ml. Mas terá muito mais bebida. Por causa da menor espessura do plástico em relação ao vidro, caberão 550 ml. "E conseguiremos vender pelo mesmo preço porque a embalagem PET é mais barata", diz Sidney Wanderley, presidente da Frevo, uma indústria de cerveja e refrigerantes. Com a garrafa PET, a empresa também quer ganhar o espaço das latas na praia e em eventos. "Além de custar menos do que a lata, ela terá mais bebida." Wanderley espera aumentar sua participação no mercado nordestino de cervejas de 4% para 15% em um ano. A Frevo produz por ano 50 mil hectolitros de refrigerantes e 30 mil hectolitros de cerveja. No início, 25% da produção de cerveja migrará para a embalagem PET. A empresa já avalia novos mercados. Em meados de 2008, quer vender sua cerveja em São Paulo e no Rio.

Mas ainda deve enfrentar alguns percalços para colocar o produto em garrafa PET no mercado. O procurador da República Jefferson Aparecido Dias, de Marília (SP), enviou um ofício à Frevo cobrando um estudo sobre o impacto ambiental da medida. Por meio de uma ação civil pública, Dias conseguiu que todas as fabricantes de cerveja que queiram usar embalagem PET mostrem que não causarão danos ambientais. "As empresas usam o PET para elevar seus lucros e repassam os custos para a sociedade", afirma Dias. Por conta da ação, Belco e Atlas precisaram obter liminares na Justiça para continuar vendendo seus produtos - alegando que a produção é anterior à ação civil pública. Wanderley diz que ainda está fazendo o estudo de impacto. Como ainda não iniciou a produção, só em dois meses deve apresentar as análises. "Isso é um pouco sem sentido. Por que não vale também para o refrigerante?", questiona. Além do estudo, Wanderley tem outros projetos para reduzir os danos ao ambiente. Um deles é lançar junto com a cerveja uma campanha publicitária de incentivo à reciclagem. Além disso, a própria fábrica quer abrir uma unidade de reciclagem. "Queremos fazer parcerias com os catadores."

O envase de cerveja em PET é um assunto polêmico no Brasil, embora represente 50% das vendas no Leste Europeu e também esteja presente na Austrália e nos EUA. Grandes fabricantes estão nesse mercado, como Miller, Heineken, Carlsberg e InBev - que só na Rússia tem três diferentes marcas.

O temor das grandes empresas que atuam no Brasil é a repetição no mercado de cervejas do que aconteceu no de refrigerantes, que enfrentou o crescimento das "tubaínas". O PET, cujo processo de envase é mais barato e exige baixos investimentos nas linhas, foi um divisor de águas e abriu espaço para inúmeras pequenas marcas. Os grandes fabricantes já sinalizaram que se a produção for liberada, não ficarão de fora desse mercado. Segundo os especialistas, com a entrada maciça da indústria de cervejas no segmento de PET e o conseqüente aumento de embalagens descartáveis no mercado, os problemas ao meio ambiente poderiam triplicar, uma vez que as garrafas de vidro de 600 ml usadas hoje são retornáveis. "Quem resolver produzir, tem que arcar com os custos ambientais", afirma Marcos Mesquita, presidente do SINDICERV. "Sou absolutamente contra", diz.

Fonte: Valor Econômico - Setembro/2007

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